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\"O BEBÉ NÃO ESTÁ A GANHAR PESO SUFICIENTE, VAI TER QUE INTRODUZIR OS SÓLIDOS MAIS CEDO\"

\"O BEBÉ NÃO ESTÁ A GANHAR PESO SUFICIENTE, VAI TER QUE INTRODUZIR OS SÓLIDOS MAIS CEDO\"

"O bebé não está a ganhar peso suficiente... Vai ter que introduzir os sólidos mais cedo." Já ouviste frases deste género? Muitas vezes, ditas por profissionais que te acompanham, não é? Por isso, confias.

Quando o bebé nasce, ou ainda antes de nascer, procuras um bom pediatra, é algo importante. A saúde do nosso mais-que-tudo em primeiro lugar! No entanto, o ser "bom" é tremendamente relativo, porque há tantas áreas interligadas no mundo dos bebés, que podemos considerar o profissional "bom" em relação àquele tema, mas não tanto, em outro tema.

Infelizmente, muitos profissionais de saúde não se encontram a par das especificidades da área da amamentação e da alimentação complementar. É um facto que, enquanto profissionais especializadas nesta área, constatamos cada vez mais. O importante é reconhecer e (re)aprender, trabalhando em conjunto com outros profissionais, para a saúde e segurança do bebé.

Um dos exemplos menos "bons" é indicarem a introdução da alimentação complementar precocemente e de modo indiscriminado pelos mais variados motivos, desvalorizando a amamentação. Ora porque o bebé é "despachado" e vamos pô-lo já a comer. Ora porque o bebé da amiga tem pouca diferença de idade e já come e o teu ainda não (ai de nós ficar atrás nesta competição olímpica!). Ora porque vai para a creche/ama/familiares e é muito mais fácil para essas pessoas que o bebé já coma para além do leite. Ora porque o bebé está a ganhar cada vez menos peso… Mas vamos centrar-nos neste último cenário.

COMERÇAR AOS 4 MESES?

Deves começar a alimentação complementar mais cedo porque o teu bebé tem dificuldade em ganhar peso? Não. O bebé cresce e ganha cada vez menos peso porque adquire novas competências como palrar, rebolar, observar, interagir, absorver informação nova, etc.

Mesmo que o bebé esteja no limite ou abaixo do valor mínimo de referência para os seus 4 meses de idade, e desde que seja saudável, não se justifica antecipar algo para o qual o bebé ainda não está preparado. É essencial que um profissional especializado em amamentação avalie a situação e perceba o que se pode melhorar na amamentação desse bebé. Reduzir a frequência das mamadas em prol da ingestão de novos alimentos não é uma solução saudável e segura para o bebé.

Aos 4 meses o bebé ainda não tem maturidade gastrointestinal para corresponder adequadamente a esta nova fase. É apenas por volta dos 6 meses que o seu organismo se encontra pronto. E quando o bebé reúne condições de segurança para esta mudança, ele demonstra sinais de prontidão.

Quais são esses sinais de prontidão? Ter controlo cervical, sentar com o mínimo de apoio, ter o reflexo de protusão da língua diminuído, e agarrar objetos e leva-los à boca. O interesse demonstrado pelo bebé na nossa comida pode ser considerado um sinal de prontidão. Mas não nos esqueçamos que este é um sinal relativo, pois o bebé não sabe que aquilo é alimento, e o interesse poderá ser apenas semelhante ao interesse por um brinquedo novo.

RISCOS DA INTRODUÇÃO PRECOCE

O leite materno é mais rico em nutrientes e muito mais calórico que qualquer sopa, fruta ou papa que possas oferecer ao teu bebé. Então qual o sentido de reduzir as mamadas com a introdução dos novos alimentos?

Se isso acontecer, estarás a diminuir o estímulo do bebé na mama e, com o tempo, a tua produção irá diminuir, pois o teu cérebro interpretará que já não é necessário produzir mais leite.

A interferência da alimentação complementar na amamentação, contribuindo para o desmame precoce, é um dos riscos mais comuns na introdução alimentar antes do tempo indicado.

Deves oferecer a mama antes, durante e depois das refeições. O leite é prioridade. Os novos alimentos são secundários, complementares, inseridos lentamente no quotidiano do bebé, sem substituir as mamadas. Conjugar a amamentação com a introdução alimentar – quando a hora de cada bebé chegar – pode parecer complicada, mas não o é. Basta manter o mesmo principio que até aqui: leite materno em livre demanda, explorando gradualmente a variedade dos novos alimentos.

Estudos verificam o risco aumentado de aspiração e complicações respiratórias em bebés que iniciaram a alimentação complementar antes dos 4 meses de idade. O excessivo aporte energético e proteico está relacionado com maior probabilidade de o bebé ter excesso de peso ou obesidade infantil (desde o 1º ano de vida). Também se regista maior risco infeccioso a nível gastrointestinal e aumento de risco de alergia, pois a maturidade dos sistemas do bebé ainda não está atingida.

É com estas bases científicas, fisiológicas e de segurança que recomendamos a introdução alimentar apenas a partir dos 6 meses de idade e perante demonstração dos sinais de prontidão. Não te esqueças que o leite materno em exclusivo é suficiente até aos 6 meses de idade e continua a ser o principal alimento até 1 ano de idade do bebé.

Cada bebé é um bebé, nem todos vão ganhar peso da mesma forma.

Sofia Roque Grilo, Equipa Leva-me ao Colo, 26 de julho de 2023

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